Bengaleiro

19.4.07

posted by rui at 19.4.07

A minha geração (iv)

Já trocou a dedução pela indução, e algumas fraldas.

posted by rui at 19.4.07

O google reader é como as delícias do mar

16.4.07

Vem tudo já juntinho, pré-preparado ao pormenor, condensado. Com o google reader já não se tem que ir aos blogues propriamente ditos. Já não se tem. O google reader optimiza: não tem palha, nem tempos mortos. Nada nele é inútil. Só se lê o autor quando o autor escreve. Poupa-se. Ena. Sem desperdício. Upa. Todos os posts arrumadinhos na nossa caixinha de email. Viva. São os blogues com abertura fácil. Ora isto está tudo errado (não esquecer a epidemia dos marcadores). Ler um blogue não é apenas ler os textos do autor quando ele os escreve. Por que razão quando um autor não escreve não interessa ir ao blogue dele? Ora essa. Pensei que isto estava tudo «no ir», que «ir ao blogue de» fizesse parte desta coisa toda. Ler alguém também é ir lá e não estar lá nada de novo, ou nada de nada. Querem dar cabo de uma relação maníaca tão bonita? Até porque o próprio autor faz isso mesmo. Repare-se que ele vai ao seu blogue sabendo que não está lá nada, mas esperando sempre que misteriosamente esteja lá alguma coisa de novo. Ou então só para estudar a questão do sitemeter. Talvez redecorar o sidebar. Ir ao blogue só para olhar para o blogue faz parte integral da experiência de ler um blogue. Veja-se que no resto da vida não existe isto do google reader. Imaginam um google life? Um google writer? Um google mãe se calhar já gostavam. Lá porque o pessoal pode receber os golos da sua equipa no telemóvel não deixa de querer ver o jogo todo, mesmo que não haja golos. Mais uma vez se manifesta esta coisa de economistas que é o horror ao vazio funcional. Que horror. O google reader está para ler blogues como o filme porno para a vida sexual vulgar de Lineu. Usar o google reader é como ter sexo dentro de um filme pornográfico, sempre e só, sem poder sair, ou parar. Assim de repente, parece-me a definição do Inferno. Reclamo o meu direito de não ser o John Holmes. O google reader é como as delícias do mar: é um atraso de vida.

posted by rui at 16.4.07

A minha geração (i)

13.4.07

A minha geração
Já comprou o disco do JP Simões.
Ou então ofereceu. Escutou, ouviu, debateu.
Esperneou; comeu.
Coçou-se.
Alargou o cinto e afivelou.
Casou que se fartou.

Já lhe morreram os avós,
foi quando a boca
se lhe secou.

A minha geração já meteu a barriga para dentro
e apreciou, realmente
que o JP Simões nos tivesse poupado
à rima dos limões.

Porque a minha geração ainda vai ter árvores de fruto no quintal
e sabe
que há flores sem jardinagem (mas são poucas)
que, como lhe ensinaram os pais, a Regaleira são Milhões
Sintra também é Mónica
e que, afinal, Agualva-Cacém tem mesmo hífen
e ainda bem.

A minha geração já conheceu o silêncio.
A minha geração já mudou de ideias.
Sem mudar o mundo,
a minha geração ainda não se estatelou,
nem emudeceu.
(talvez porque esteja isenta do IMI).

A minha geração
já não tem meniscos,
nem faz judo.
Mas quem mandou tirar as alcatifas
e o papel de parede
ainda foram os papás.
(que os lá haviam posto, diga-se. Ainda foram a tempo. Porque nesta como noutras coisas a difeença fundamental não está entre cedo e tarde mas entre tarde e tarde demais. Assim saibamos fazer o mesmo.)

posted by rui at 13.4.07

A minha geração (ii)

Não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar, eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa
Por isso cuidado meu bem, há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado prá nós que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu 'tô por fora', ou então que eu 'tô inventando'
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude
Tá em casa guardado por Deus contando vil metal
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
como nossos pais.

[Elis Regina, «Como nossos pais»]

posted by rui at 13.4.07

A minha geração (iii)

posted by rui at 13.4.07

Sexta-Feira, 13

Fazer como o DN: menos palavras e mais corpo na letra.

posted by rui at 13.4.07

As formas elementares da vida política

11.4.07

A autoridade do chefe político possui algo de totémico. Se bem entendo as formas elementares da vida política, a delegação da soberania individual na autoridade política dos órgãos de soberania, colectividade pessoalizada no chefe político, é análoga da devoção do totem. Ao adorar o totem, a comunidade está a adorar-se a si mesma. E logo, é uma forma de se fazer a si mesma, de se conceber a si mesma enquanto colectivo. Daí que, política e religião, ao darem conteúdo ao laço entre o plano individual e o colectivo, ao fazerem do «nós» uma questão fabril, serem eminentemente «políticas».
A questão da prova documental é deste do ponto de vista - crístico - completamente irrelevante. Se houve uma quebra de confiança, se o vaso se quebrou, não é possível documentalmente emendar, religando os cacos. Os factos documentais são apenas o pão com manteiga da conversa. É preciso mais qualquer coisa do domínio do religioso, quer dizer, do político. É preciso forjar um novo elo. Mas isso vem com um preço, o do sacrifício. Estas coisas antigas são mesmo assim. O expor-se às setas, o responder até ficar exangue. É preciso expiar, expiar é bom. No sacrifício, a vitima tornar-se sagrada. O ente sacrificial torna-se sagrado pelo acto mesmo de ser morto, ritualmente. A morte dá vida. Hoje à noite, é preciso alquimia.

posted by rui at 11.4.07

Via crucis, Bussaco

8.4.07

posted by rui at 8.4.07

As dioptrias de Elisa

4.4.07

Pode parecer forçado, mas tenho uma tia que se chama Elisa e tenho dioptrias. Não tenho todo o catálogo de enfermidades na vista, tenho só uma, hipermetropia. O problema da hipermetropia, que o António Gancho também tinha, é que ninguém sabe o que é, excepto que é o contrário de miopia, a qual, se bem que nem todos tenham, ninguém desconhece. Toda a vida tentei explicar o que era a hipermetropia. Tia direita, a minha tia Elisa. Aparentemente, toda a gente só entende a questão do estreito ponto de vista de se se vê bem ao longe ou não. Bom, eu não vejo bem nem ao longe, nem ao perto. Tenho hipermetropia. Uso óculos. Mas então o que é, insistem. «O contrário da miopia». Como assim o contrário de miopia? Aqui saca-se da caneta e do papel e faz-se o desenho respectivo. Dois olhos, duas retinas, dois fulcros oculares. Lentes divergentes, miopia; lentes convergentes, hipermetropia. O hipermétrope usa convexas. Devo muito à hipermetropia. Quando era puto, ia regularmente ao oftalmologista (médico da vista) fazer uns exercícios traumatizantes. Meter o leão na jaula. Hora e meia. Meter o carro na garagem. Meia hora. Ali na avenida da Liberdade. Saia com um olho tapado, numa semana. O outro, na semana seguinte. Um regalo na escola. Punhos de renda. Devo muito à hipermetropia. Por exemplo, acendo os cigarros ao sol com os óculos. Só não dá bem quando faz vento. Não me queixo.

posted by rui at 4.4.07

Arch-Nemesis

Is to

As

Is to

posted by rui at 4.4.07

No cure for cancer


Denis Leary

(vai agradecido)

posted by rui at 4.4.07